domingo, 8 de janeiro de 2012

O nascimento


Naquele domingo a filha de João Antônio e Maria da Graça nasceu. Veio ao mundo naturalmente, sem ajuda de parteira nem de auxílio médico, apenas na presença de seu pai e de sua mãe.
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João Antônio foi até a prateleira e pegou uns panos limpos. Súbito lembrou-se da água evaporando no fogão. Verteu então a água fervente da chaleira em uma bacia de metal toda torta pelo uso. Tornou a encher a chaleira e reforçou o fogo com mais pedaços de lenha. Levou a bacia com os panos para o quarto.
Maria da Graça estava de barriga para cima, em posição de parturiente, com as pernas semiabertas e os joelhos levantados. João Antônio fez umas compressas com os panos e colocou-os por sobre o ventre avantajado da mulher. “Se pelo menos a mãe da mulher ou o padrinho Guinas chegasse, bem que poderiam me ajudar com essa encrenca”, refletiu.
Juntou os dois travesseiros de pena de galinha e ajeitou-os debaixo da cabeça da esposa. A agonia da dor fazia com que Maria da Graça forçasse para fora a vida que tinha dentro de si. João tentou ajudar a mulher como pôde, mas Maria, em meio aos gemidos e gritos, disse para que ele se afastasse. O homem, vendo-se inútil, saiu do quarto a fim de procurar a velha tesoura de tosquiar as ovelhas no galpão contíguo à morada.
Encontrou sem dificuldade a tesoura dependurada em uma das paredes do galpão. Estava um pouco enferrujada e suja, pois desde a última tosquia que não a usava. Lavou-a no coxo que fica do lado de fora e levou-a para casa, mergulhando-a, por fim, no fogo por alguns instantes para esterilizá-la.
De repente fez-se silêncio. Logo depois ouviu, vindo do quarto, não os gemidos da mulher, mas o choro estrepitoso de um bebê. Correu e avistou a mulher, banhada em suor e sangue, com uma criança nos braços. Maira da Graça sorriu e chorou ao mesmo tempo ao avistar o seu homem no limiar da porta. Mas não teve forças para dizer uma palavra sequer.
João Antônio, sem se afobar nem desesperar, pois sabia que aquilo era uma coisa natural, fez a volta para buscar a tesoura imersa no fogo. E de volta ao quarto, tratou de cortar o cordão umbilical. Ali, naquele momento, ele soube exatamente tudo. Sua vida agora tinha um propósito. Era pai, e ali estava a sua filha, o seu sangue, a sua vida.
Depois, com a filha em suas mãos e a voz tremida pela emoção, disse para mulher, “É uma menina”. Segurou as palavras para não deixar que as lágrimas escorressem de seus olhos e anunciou: “Maria Antônia! Esse vai ser o nome da bichinha.”

domingo, 1 de janeiro de 2012

Apreensão

João Antônio saiu do quarto e foi até o fogão verificar se o fogo ainda estava aceso. Para sua tristeza, estava já apagado. Remexeu nas cinzas e uma brasa cintilou. Catou uns gravetos e umas grimpas na caixa que fica atrás do fogão e juntou tudo dentro do mesmo de modo a formarem uma espécie de cabana. Riscou um fósforo, mas o nervosismo fez com que o palito se partisse. Tentou novamente. Desta vez, foi sua própria respiração ofegante que apagou a chama. Na terceira tentativa, conseguiu. Em seguida, o pipocar das grimpas foi como uma bateria de fogos de artifício estrepitante.
Vindos do quarto, os gemidos da mulher deixavam-no cada vez mais nervoso e apreensivo. De instantes em instantes, estalidos rompiam os gravetos que ardiam ao serem lambidos pelas chamas. Esperou. Depois, resolveu ir até o galpão para juntar uns pedaços de lenha seca para alimentar o fogo. Ao abrir a porta da casa, um vento frio e constante arrepiou-lhe os pelos, desgrenhando-lhe a cabeleira. De volta ao rancho, ajeitou uns tocos de lenha na pequena fogueira de modo a não abafar o fogo. Depois de alguns minutos, o calor começou a espantar o frio de dentro da casa.
Observou o comportamento do fogo por mais uns instantes e resolveu encher a chaleira, toda preta de picumã, com água, depondo-a sobre o fogão para ferver a água. Ficou matutando e zanzando pela cozinha sem saber o que fazer. Seus movimentos eram distraídos e meio que atrapalhados. Apesar do frio, o suor brotava-lhe na testa. A água então ferveu, mas João Antônio, no entanto, nem se deu conta. Estava completamente absorto em seus pensamentos, totalmente apreensivo, pois no quarto ao lado, a mulher, gemendo e contorcendo-se de dor, gritou quase que desesperadamente. “Acuda, home do céu!”.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A mudança da lua

Maria da Graça sentiu os primeiros sintomas do parto no início daquela manhã de domingo. Gritou pelo marido, mas não obteve resposta. João Antônio, como de costume, saíra cedo para o campo logo após a ordenha e de ter tratado as galinhas.
Era o fim do inverno e os dias estavam cada vez mais longos. Mas o frio ainda insistia em continuar. As primeiras flores do velho ipê só esperavam os dias gelados irem embora de vez para apontar e anunciar a primavera que não tardaria em chegar.
As novas folhas das outras árvores do quintal que iam despontando queimaram-se todas pelas geadas dos últimos dias. Outros brotos surgiam e, logo, logo, cobririam de verde os galhos secos e cinzentos. Todavia outra geada vinha e queimava tudo novamente. Mas os dias, cada vez mais quentes, eram sucedidos pelas noites frias e geladas. Era a primavera que principiava anunciando toda a sua força.
João Antônio, que nos últimos dias andava preocupado com o estado da mulher, voltou mais cedo do campo naquele domingo. Fora apenas dar uma olhada em algumas vacas do coronel Osório que estavam para dar cria. Lá pelas dez e meia da manhã, voltou.
Ao entrar no rancho, encontrou a mulher estendida na cama, abanando-se toda. As dores do ventre faziam-na contorcer o corpo. O líquido da bolsa que estourara escorria-lhe por entre as pernas. “É, a coisa é pra hoje mesmo...”, pensou João Antônio tentando não perder a calma.
“A lua mudou e a brasina velha também já criou...”, comparou a gravidez da mulher com a prenhez das vacas. Nesse momento, João Antônio, que ainda tentava manter a calma, agitou-se de tal forma que não atinava o que fazer. A mulher, à sua frente, contorcendo-se de dor, gritava “Acuda, homem, por amor de Deus!”.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O dia de domingo


João Antônio levantou-se. No ato, sentiu uma fisgada na coluna. Com ambas as mãos postas em suas costas, ensaiou um alongamento meio que por impulso. “Também, dormi nesse cepo mais duro que trote de petiço manco, bem feito!” – esconjurou-se por ter passado parte da noite na cozinha. Caminhou na direção do quarto. A casa está ainda escura, pois o sol ainda tardaria a apontar no horizonte. Aproximou-se da porta do quarto com receio. Um medo de se deparar com uma nova vida ali e de ser pai o afligiu. Com a chegada da criança, as responsabilidades aumentam consideravelmente.
Espiou o interior do aposento e fez meia-volta. Reforçou o fogo, acrescentando alguns pedaços de lenha. Encheu a chaleira de água e a pôs para esquentar. Em seguida, fechou a portinhola e saiu. Lá fora, a neblina começava a se dissipar e o domingo prometia um dia bonito de céu azul. Uma brisa gelada soprava insistentemente. Campeão o aguardava do lado de fora. “Buenas, amigo veio, dormiu bem? Pois eu varei a noite...” – não perdia nunca essa mania de falar com cão e com outros animais. Ao terminar de falar, bocejou, soltando um grito gutural – “Êta, sono veio dos infernos!” – e dirigiu-se ao galpão contíguo a casa.
Como atrasou um pouco a ordenha, a vaca brasina já o aguardava na entrada do galpão e, volta e meia, mugia impacientemente. “Calma, Brasina veia! Para lá que já te tiro o leite”. Abriu a porteira e a vaca entrou com seu passo bovino e preguiçoso. O bezerro berrava obstinadamente. “Encosta!” – dizia João para que a vaca se posicionasse no lugar habitual da ordenha ao lado da estrebaria aonde dormira o vitelo. João Antônio abriu o portão da estrebaria para que o bezerro mamasse um pouco. Apojou e depois amarrou o boizinho próximo à cabeça da mãe, que mugia como se dissesse “Vem cá, meu filho!” e foi até o rancho passar o café. “Hoje vou tomar o camargo da Brasina.”
Alguns minutos depois, estava de volta ao galpão, com a chocolateira e outros petrechos. Ordenhou e no final, bebeu o camargo, soltando, e seguida, a vaca com sua cria no potreiro. Tratou das galinhas e foi buscar água para os serviços caseiros no córrego aos fundos do rancho, distante apenas alguns metros. De volta a casa, preparou tudo como de costume e saiu pro campo. O domingo prometia novidades para aquele cafundó e João Antônio parou por um instante em frente à casa e olhou para trás, fechando o semblante – “Acho que de hoje não passa” – e continuou o seu caminho.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Uma pergunta


No forro da casa, o gambá move-se de um lado a outro causando um barulho surdo. “Tenho de dá um jeito nesse desgracido” – pensou João Antônio enquanto reforça o fogo com uns pedaços de lenha seca. Depois, sentou-se no cepo ao canto da cozinha e fecha os olhos. Está visivelmente cansado pela noite mal dormida. Maria da Graça também dormiu um sono agitado. “A coisa é capaz de ser pra hoje...” – refletiu. E enquanto o pensamento o ia levando pelos meandros da memória, pelas vias das lembranças de coisas que aconteceram nos últimos dias, cochilou.
Súbito acordou, meio que assustado. Ficou alguns instantes com um ar palerma. De repente, lembrou-se do feijão e do leite que havia posto sobre a chapa. Por pouco o leite não derramou. Estava já borbulhando nas bordas da velha vasilha amassada pelo uso e pelo tempo. Verteu-o numa caneca. O feijão, comeu ali mesmo na panela, arranhando com a colher o fundo do recipiente. O calor do alimento o deixou reconfortado. “É bom ter algo quente no estômago” – pensou – “eu tava era com fome”. Bebeu em seguida a caneca do leite já morno.
Dentro de pouco tempo, seu corpo cambou para o lado da parede. Fechou os olhos e adormeceu novamente. Pouco depois, acordou com o canto esganiçado do galo anunciando a aurora que não tardará a chegar. João Antônio abriu os olhos e, a princípio, não compreendeu nada. Uma sensação de estranhamento o dominou. Está habituado a acordar sempre no mesmo quarto, com as mesmas paredes, a mesma cama, a mesma mulher a ressonar a seu lado.
Olhou desconfiado para o lado e não viu nada disso. O que viu foi uma caixa de lenha, o fogão. Recobrou a consciência. Lembrou-se que acabou dormitando na cozinha. Esfregou os olhos, bocejou, ajeitou-se no cepo e respirou fundo. O ar renovou-lhe o ânimo e o discernimento das coisas. Permaneceu sentado mais alguns instantes. De chofre veio-lhe à memória a lembrança da mulher. “Será que já nasceu?”, perguntou-se em silêncio.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Uma distração


João Antônio sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. Esfregou as mãos uma na outra para espantar o frio e depois, como se desse um abraço a si próprio, esfregou os braços. “Tá fria!”, murmurou. Dirigiu-se para a cozinha. Sentia fome. A ansiedade roubou-lhe o sono causando-lhe o apetite. O interior da casa estava escuro. Somente um ou outro raio da luz do luar penetrava pelas frinchas das paredes e das janelas.
Abriu a veneziana da janela da cozinha para que a lua iluminasse o interior da casa com sua luz diáfana. Procurou, naquele lusco-fusco, o pedaço de pão de milho que restara do café, mas a mulher já o havia comido pouco antes de se deitar. Restou-lhe beber um copo de leite que estava, juntamente com a panela com o resto do feijão ressequido, sobre a chapa do fogão, frio como aquela madrugada.
Suas mãos tremiam. Não sabia se por causa do frio ou do nervosismo. Mal tem dinheiro para a comida dele e da mulher e, agora, mais uma boca para alimentar e um corpo para vestir. Por sorte, sempre há algum animal para se caçar para matar a fome. João é um bom caçador, mas o coronel Osório proibiu a caça em suas terras. “Ai daquele que eu pegar caçando em minhas terras!”, disse um dia o coronel. Vez por outra João embrenha-se no mato a procura de alguma caça: um tatu, uma perdiz, um veado ou uma lebre.
Acendeu o lampião. Abriu a portinhola do fogão e ajeitou uns gravetos e um pequeno pedaço de grimpa dentro do fogão. Riscou um fósforo e a chama do pequeno palito iluminou-lhe a mão e a cara. Assoprou de modo a não apagar o fogo. Com o sopro, uma nuvem de cinzas subiu, engasgando-o. Tossiu. Permaneceu calado a ouvir o silêncio e os estalidos do fogo queimando as grimpas para não incomodar a mulher, que solta, de quando em vez, uns gemidos do aposento contíguo. Logo, o silêncio reina absoluto.
A flama aqueceu-lhe o rosto e as mãos. Por pouco não se deixou queimar. Distraiu-se com os ruídos da mulher e do silêncio da noite.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A noite alva


Aquela noite de sábado para domingo foi longa e fria. Um vento constante assoviava lá fora fazendo com que os galhos do velho ipê batessem nas paredes da casa. No céu, cheio de estrelas, as poucas nuvens passavam ligeiras e a lua boiava solene e tranquila por sobre elas. João Antônio dormiu um sono salpicado.
Ao seu lado, Maria Valéria, volta e meia, gemia e ajeitava-se na cama dura de colchão de palha. A preocupação com o estado da mulher naquele fim de gestação afligia João e roubava-lhe o sono. Levantou-se e permaneceu de pé por alguns segundos balançando-se como se estivesse embriagado. Estava ainda zonzo do sono mal dormido. Mal conseguiu pregar o olho. Estava ali agora plantado feito uma árvore em plena ventania. Oscilava de um lado a outro como um pêndulo de um velho relógio desregulado.
Lá fora, o minuano recrudescia. E era como se balançasse o homem aqui dentro da casa. O vento parecia também embalar o sono de Maria Valéria. A mulher, coitada, com seu ventre pronunciado, remexia-se na cama como que assombrada por um sonho ruim. “E esse vento desgramado que não pára”, pensou João agora que acordou de vez, “Até parece coisa d’outro mundo. É bem como diz o padrinho Guinas: noite de vento, noite dos mortos”.
De repente, o vento amainou. O silêncio agora era quase completo no interior desse rancho perdido por esses confins dos campos de cima da serra. João Antônio respirou fundo e recobrou a consciência. Dirigiu-se à janela. Espiou a lua pela fresta da veneziana. “Deve de ser por volta da meia-noite”, pensou, “a lua já vai alta”.
Lá fora, não havia mais vento. Os galhos do ipê não mais se moviam. Já não batiam contra as paredes da casa. A mulher voltara a dormir, tranquila. A geada, que já branquejava o pasto, deixava o campo em derredor parecendo coberto de prata, brilhante. A lua clareava tudo, até parecia que a aurora estava por nascer, alva como a luz de uma manhã fria de inverno.
“É, acho que agora já posso voltar a dormir...”

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Revirando os pensamentos


João Antônio pôs-se a reavivar a brasa com um graveto. Reforçou o fogo com dois pedaços de lenha. Sentou-se à mesa onde o esperava um pedaço de pão de milho que a mulher havia preparado há uns três dias. O homem comeu, absorto, o seu pedaço de pão.
“Vou enjambrar um berço com uns pedaços de pau que têm lá no galpão...”
“Ah, é boa mesmo... pois eu acho que não passa de já-hoje... tô com uns embrulhos aqui assim, ó”, disse Maria da Graça indicando com a mão o ventre pronunciado.
João Antônio fecha o semblante e sai para a noite escura em direção ao galpão, cabisbaixo. A preocupação o aflige. O cachorro Campeão permanece deitado na soleira da porta. Segue o dono com os olhos. Solta um suspiro profundo e volta a cochilar. João esforça-se para enxergar, mas o lusco-fusco vai ficando cada vez mais escuro até o breu ser total. No galpão, dirige-se à parede onde está o coto de vela. Acende-o. As sombras aumentam e diminuem com a chama incerta. Procura no monte de lenha alguns pedaços de madeira para a construção do berço.
João revira o monte de lenha e depara-se com um cocho velho prestes a virar lenha. O cocho fora feito escavado em um tronco de uma araucária centenária. Ao avistá-lo, seus olhos brilham. “É esse mesmo! Vou lavar bem esse cocho e improvisar uma cama pro neném”, pensou.
Retira o cocho do monte e analisa-o com mais cuidado. “Se cavocar um pouquinho aqui e ali, fica especial”, diz em voz alta coçando a cabeça.
Vai até o outro lado do galpão. Volta com o carrinho de mão. Agarra o cocho com suas mãos fortes e rudes de lavrador. Ergue-o. Depõem o cocho no carrinho. “Vou deixar pra amanhã. Já tá muito tarde e tá um frio desgramado”.
Apaga a vela e volta para casa. Entra e vê Maria da Graça com a mão no ventre e respirando com dificuldade. “É... acho que a encrenca não passa de já-hoje mesmo”, resmunga para si mesmo e senta-se no cepo junto ao fogão e fica revirando a brasa e os seus pensamentos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sentimento de abandono

João Antônio voltou ao trabalho no campo. No caminho, ia pensando na mulher e em construir ou improvisar um berço para a criança que estava por nascer. Ainda não sabia se seria guri ou uma menina. Trabalhou o resto da tarde, juntou suas ferramentas e se preparou para regressar a casa.
Enquanto o dono roçava o campo, Campeão permaneceu deitado sob a sombra da grande timbaúva. Assim que o João Antônio começou a guardar as ferramentas em um abrigo no vão do tronco da árvore, o cão já se postou de pé e se pôs em estado de ansiedade. Queria ir para casa. E lá se foi o homem seguido por seu cão, assim como todo amigo leal e companheiro, sempre o acompanhava de perto.
Chegou ao rancho pouco antes do pôr-do-sol. O frio daquele fim de tarde era de rachar. Entrou e encontrou a mulher sentada na penumbra do aposento, cosendo uma roupa de criança ao redor do fogão à lenha. Maria da Graça soltou um suspiro e disse, “Já voltou, é? Como é que foi lá pros campos de já-hoje? Tudo na santa paz?”.
Ele respondeu apenas com grunhido, sem vontade. João Antônio é um homem de poucas palavras. Mas um tempo depois, falou, “Fui lá na casa do padrinho Guinas de já-hoje...”
A mulher interrompeu o bordado e ergueu a cabeça, esperando o resto do relato.
“Amanhã ou depois ele disse que bate aqui por casa...”.
“Graças a Deus Nosso Senhor mais a Virgem Nossa Senhora!”, disse Maria da Graça benzendo-se toda. “Deus abençoe e guarde o compadre Guinas.” Ficou um instante em silêncio como se uma desilusão tivesse enchido o seu semblante, como um sentimento de abandono, “E cadê a mãe, que até agora não deu o ar da graça... e nós aqui nesse cafundó onde o Judas perdeu as botas... até parece que se esqueceu da gente... Cruz credo!”.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Chimarreando



Tio Guinas levanta-se e dirige-se até o fogão à lenha pegar a chaleira, onde a água ferve. Enche a cuia e ajeita a bomba da melhor maneira. “E le digo mais, meu afilhado, se não nasceu na mudança da lua, então vai ser só pra depois que mudar de novo pra lua nova, daqui uns dois ou três dias...”
Tio Guinas fala de Maria da Graça, mulher de João Antônio, que está prestes a ganhar o primeiro filho. Enquanto isso, o rapaz se ajeita num canto do aposento para preparar o seu cigarro de palha.
Depois de um longo tempo de silêncio entrecortado pelos chupões que o velho dá na bomba do mate. João Antônio nada fala. Pita o seu palheiro em silêncio, soltando a fumarada com longos suspiros. Está visivelmente apreensivo. “Tá bom... quando o senhor puder ir, é só ir...”.
Tio Guinas nem ouve o que outro fala. Está entretido com o seu chimarrão. Chupa o líquido quente, que faz pelar a língua, e manuseia a bomba, ajeitando-a de modo que a cuia não entupa com a erva. “Iiihhaa”, solta um grito eufórico e fala ainda em voz alta “Roncou a bicha veia!”, e dá uma gaitada, louco de faceiro. Toma a primeira cuia, como é de costume e tradição, e oferece ao afilhado.
João pega a cuia e toma o mate em silêncio. Ao término, entrega-a novamente ao anfitrião. Levanta-se e despede-se do padrinho.
“Deus lhe ajude... tenho de ir... espero que o padrinho apareça lá por casa pra amanhã ou depois... até.”
“Mais tardar pra depois de amanhã eu apareço. Não se apoquente à toa, guri, que esse homem velho aqui é homem de palavra!”
João Antônio sente–se agora um pouco menos incomodado. Olha para o horizonte como se avistasse uma salvação, solta um suspiro longo e diz, “A bênção, padrinho!”
“Deus le abençoe! Deus le guie!”
O cachorro Campeão, que o esperava deitado no limiar do rancho, levanta-se e empina as orelhas logo que o dono diz, “Vamos”. Os dois saem em direção ao horizonte e o velho acompanha-os com os olhos até os perder de vista.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Chamamento


João Antônio descalça as velhas botas e entra com os pés descalços. A casa não difere muito da sua, apenas mais envelhecida. Dependuradas na parede, somente umas velhas esporas de prata, um arreador com cabo esculpido em madeira fazendo alusão a uma cabeça equina, um chapéu de aba larga, barbicacho, uma imagem da crucificação de Cristo e mais alguns petrechos espalhados pelos pregos.
Tio Guinas estava visivelmente animado com a visita inesperada do afilhado, apesar de já ter uma ideia a respeito do motivo do aparecimento. “Me diga uma cousa, meu filho, já nasceu a criança?, perguntou assim logo de prima, sem rodeios, enquanto punha no fogo a chaleira cheia d’água para preparar o mate.
“Inda não...”, João Antônio falou depois de alguns instantes, com ar de quem está querendo dizer algo, mas não toma coragem.
O silêncio volta a reinar por um tempo no interior do casebre. Apenas o bate-bate que o velho faz nos armários à procura dos ingredientes para preparar o mate amargo.
Súbito João Antônio enche-se de coragem e começa a falar, mesmo que titubeante.
 “Pois é isso mesmo o que me traz aqui... eu... mais a... mulher... queria que o padrinho... desse um ajutório lá em casa... pra a mulher velha... poder ter a criança em paz...
“Mas é pra hoje a encrenca?”
“Tá querendo...”
“Mas bah! Então, assim que o guri do meu compadre chegar, que tá vindo lá das bandas de Lages, eu mando ele de já hoje mesmo lá pra fazenda do coronel Osório... É que eu ia pra lá hoje pra fazer uma lida... mas daí eu mando o guri...”
“Mas não precisa de se incomodar, padrinho...”
João Antônio permanece cabisbaixo como se sua esperança o estivesse abandonado.
“Mas não se desacorçoe homem, assim que o guri chegar, eu me debando lá pra tua casa. Mais tardar amanhã cedo, na barra do dia... Tô louco pra ver a cara do bacuri!”

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

No vão da porta


Tio Guinas é homem do campo e sabedor das coisas. Conhece as coisas do tempo e da terra. Nunca frequentou escola. Sabe ler as estrelas, a lua, o sol, o vento, o comportamento dos animais e das pessoas. Tudo o que sabe, aprendeu com a vida, reparando nela.
O velho coronel Francisco, de quem muitos suspeitam que seja filho, foi quem o ensinou algumas letras, mas mal e mal escreve o próprio nome, pois naqueles pagos, o homem do campo não carece de palavras escritas. A palavra oral é a que vale. Um homem de palavra é um homem digno e honrado. Basta não cumprir com o que foi dito para ser desrespeitado socialmente. O velho Aguinaldo Silva sempre foi homem de palavra. Daí o respeito e a admiração de todos.
Apesar da idade avançada, vez por outra ainda monta o seu tordilho, sempre ao raiar do dia, e sai a trote pelas coxilhas e pagos e dirige-se à fazenda Monte Alto, onde é sempre bem-vindo. É uma espécie de conselheiro do coronel Osório, assim como o foi do coronel Francisco.
Apesar de tio Guinas ser padrinho de batismo de João Antônio, ninguém sabe ao certo se existe algum parentesco entre os dois. Faz de tudo e mais um pouco para ajudar o afilhado, mantendo sempre os olhos atentos sobre ele. O que tiver ao seu alcance, tio Guinas faz. E de bom coração.
Ao ver o velho, para no vão da porta, o cachorro Campeão dispara. Tio Guinas permanece pensativo, “Ué... o que será que esses dois tão fazendo pr’essas bandas uma hora dessas? Será que o bacuri nasceu?”. O cão faz festa ao chegar ao amigo. Lambe-lhe as mãos, enrodilha-se todo nas pernas do velho e pula e late e esganiça de felicidade. O velho ri e brinca com o cão, “Êita, cusco velho caborteiro!” -
“Buenas, padrinho!” – grita João enquanto fecha a cancela do portão.
“Buenas! E a afilhada Maria, como vai indo?”
“Boa... E por aqui, como vão as coisas”
 “Por aqui, tudo na Santa Paz, graças a Deus.” – tio Guinas estende a mão e João Antônio pede a bênção.
“Deus le abençoe meu filho!”
E ficam os dois parados no vão da porta num silêncio típico de sítio, cada um olhando para os seus próprios pensamentos e pés.
“Mas se aprochegue, homem” – convida o velho.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Causos e rumores

Tio Guinas gosta de ficar numa roda de chimarrão com os mais moços e contar os seus causos e lendas da sua vida e da dos outros. Acrescenta sempre algo a mais nas suas narrativas, pois quem conta um conto aumenta um ponto, como se diz por estas bandas. Os ouvintes ouvem com atenção redobrada as histórias dos tempos de outrora. O velho fala pausadamente e com o palavreado típico da região serrana.
Está já com uns setenta e poucos anos, mas a memória ainda guarda intactas as lembranças da infância e da adolescência. Sua mãe era uma índia velha que viveu nas terras do coronel Francisco Fragoso, pai de Osório. Dizem alguns até que tio Guinas era filho legítimo do coronel Francisco. Outros apontam semelhanças entre os dois, Osório e ele. “Os olhos de guri arteiro são iguais aos do coronel”. No entanto, nada é comprovado. Naquele tempo ainda não existiam testes de DNA ou coisas parecidas. A verdade é que Aguinaldo da Silva, o tio Guinas, viveu a sua vida inteira nas terras do coronel Francisco e vive, ainda hoje, sob a proteção do coronel Osório, seu provável irmão.
Tio Guinas faz parte da história da fazenda Monte Alto. Está para ela assim como as taipas que singram as coxilhas e as araucárias que cobrem os campos e invernadas. A querência não é a mesma sem o tio Guinas. Os filhos do coronel Osório, quando chegam à fazenda para passarem as férias, a primeira coisa que fazem é correr para o galpão para ouvir-lhe os causos e anedotas. Adoram o tio Guinas como se este fosse um membro da família. Não sabem eles dos rumores que rondam sobre a suspeita da sua paternidade e do parentesco do velho com o avô dos piás. O coronel Osório não lhes fala nada a respeito, nenhuma só palavra. Decerto temeroso por ter que dividir, entre mais um, a herança dos filhos.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Tio Guinas


Depois de pouco mais de meia hora de caminhada, avistou ao longe o rancho do tio Guinas. Um fio de fumaça saía pela chaminé do casebre. Sinal de que há gente na morada. A casa, vista assim de longe, parece incorporada à paisagem a sua volta. Já tomou a feição do mato e das árvores em derredor. A madeira, que já sofreu a ação e os efeitos da pátina do tempo, mais parece um tronco de uma grande árvore envelhecida. Assim como a morada de João Antônio, o rancho do tio Guinas também está virado numa tapera. Até dá pena.
O velho vive só naquele ermo. Sua casinhola também é desprovida de luxos, luz elétrica, água encanada, esgoto. Apesar de estarmos em meados dos anos setenta, tio Guinas, do mesmo modo que João Antônio e Maira da Graça, ainda vive como se fosse o início do século XX.
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João Antônio e Campeão aproximam-se do sítio. Um cão, que tio Guinas mantém acorrentado por detrás do rancho, latiu insistentemente. Instantes depois, a figura de um velho despontou na soleira da porta. Era o tio Guinas.
Tio Guinas é um caboclo velho trigueiro com sangue de índio botocudo. Quando mais moço, era famoso por suas façanhas nas domas e lidas de gado e de galpão. Não havia potro xucro que tio Guinas não desenganasse. Não temia os perigos da doma. Quando era tempo de vacinação ou marcação do gado, sempre escolhia algum touro ou boi brabo para montar e exibir-se para os outros, que gritavam e assoviavam empolgados pelo feito:
“Mas, ah, quera veio!”, gritavam.
Tio guinas também gosta de contar uns causos. Não perde tempo nem vez para falar das suas andanças e aventuras. Não pode ver uma roda de chimarrão que já se aprochega, assim meio que de revesguelho, como quem não quer nada, aguarda uma brecha ou que alguém lhe passe a palavra, e já vai falando, assim vagarosamente, num jeito sestroso, fazendo com que todos fiquem atentos, prestando atenção. Tio Guinas é como um grande artista. E esse é o seu palco. Esse é o seu grande número.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

No caminho


Com o sol já a pino, João Antônio regressou a casa para o almoço, onde Maria da Graça o esperava, com a barriga, enorme, de quase nove meses, e pronta para rebentar a qualquer momento. O prato do dia é o de quase sempre: feijão-preto com linguiça e um pouco de farinha. Uma mesa farta, apesar das carências de tantas outras coisas, como luz elétrica e água encanada.
João termina de comer, esfrega a manga da camisa na boca e levanta-se para beber um copo d’água para desembuchar e se dirige ao quarto. A mulher faz o mesmo, mas seus movimentos não são tão rudes quanto os do marido, limpa os beiços com o pano de cozinha que sempre carrega em seus ombros.
Pouco tempo depois de tirar a pestana, João Antônio convida o cachorro Campeão para acompanhá-lo. “Vamos Campeão!”, o cão sacode a cola com vigor e entusiasma-se ao ouvir a voz do dono pronunciar a palavra “vamos”, pois sabe que significa alguma viagem ou lida de campo. O homem mal se despede da mulher com um tatear das mãos, que mais parece uma carícia sem sentimento, apenas um roçar frio seguido de um olhar desviado para o chão.
Os dois, cão e homem, seguem o caminho. O cão vai à frente, farejando algo aqui e ali por entre as moitas de vassoura e carqueja. O rancho do tio Guinas fica no outro lado da fazenda, nas encostas do Morro Grande, pouco mais adiante de onde João estivera trabalhando no período da manhã. O céu estava todo azul e o sol abrasava a pele, apesar do fraco vento que ventava intermitentemente.
“É Campeão, o padrinho Guinas vai ficar é mais faceiro que égua de dois potrilhos quando souber que vamos convidar ele pra dá um ajutório lá em casa enquanto a mulher se recupera do parto” – disse essas palavras dirigindo-as ao cão, mas, na verdade, era para dar mais sustança à ideia que tivera enquanto estava na labuta no período da manhã.
E os dois tomaram o rumo direito ao rancho do tio Guinas.